CIA.DUAL


BRUTA MIRADA: Uma dança nas travessias da memória

– texto por @insurgenteteatro –

“Sertão é isso, o senhor sabe: tudo incerto, tudo certo” (João Guimarães Rosa).

“Eu bailo em poemas, multicolorido! Palhaço! Mago! Louco! Juiz! Criancinha! Sou dançarino brasileiro!” (Mário de Andrade).

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Chegança. Sertão.

Corpo e Devoção.

Ancestralidade.

Como mirar a vida em sua vastidão?

BRUTA MIRADA, videodança da CIA DUAL, me atravessou feito um rio caudaloso em meio a um árido desertode sensações, vivido em plena quarentena e isolamento social. Uma profusão de imagens, cantigas, retratos e cheiros através de uma coreografia que nos conecta a mundos sagrados, trazendo esses muitos Brasis com suas diversas danças, cores, línguas, saberes e sabores.

“O sertão é dentro da gente” (ROSA). A videodança da CIA DUAL nos coloca numa jangada cujo balanço emociona a cada margem que encontra, revelando a poesia do ínfimo, do pequeno, do misterioso, sentindo o pé bater no chão, a água que lava a pele, transborda a tela e acende a vela de um ritual: “é só tirar a cortina, que entra luz nesta escurez” (Mário de Andrade).

Onde tem espaço e respira tempo: um corpo se move, a cidade se esvanece, vira noite e solidão e habitamos um “ser tão”. Corpo que espelha uma árvore numa comunhão cósmica que presentifica nossas raízes.

Neste trabalho da CIA DUAL tudo parece dual: sol e lua estão refletidos nos corpos dos bailarinos e os contrários aqui se beijam: Deus e Diabo, céu e terra, homem e bicho. O que é civilização? Andar pra frente ou retornar para o início de tudo? O nada existe? O que fazer daqui para trás?Nonada. O vazio comendo o pleno que é sempre prenhe de vazio.

Em BRUTA MIRADAo romance se faz Dança e a literatura se transforma em paisagem. João Guimarães Rosa gira junto a Mário de Andrade e aos Mestres e Mestras que derramam palavras e flores pelo caminho. “Está caindo flor”…

A câmera baila sobre a vida miúda de um povo que canta, reza, resiste, chora, ri e anonimamente vence a morte e o descaso político e social. Bruta morada.

Senti essa força estranha de meus antepassados grudados em mim: o terço, a fé, a benzeção: “vai com Deus! Bota a mão no coração”! Este miraculoso jeito de olhar o mundo que desabrocha pela prática obstinada da religiosidade popular.

Uma afro-poética na qual os silêncios estão vibrando antigas músicas.

Tem dor e tem amor.

A ternura respinga nas securas da alma. Sertão: abundância de vida.

Meu primeiro contato com a arte da CIA DUAL: um encontro bruto. Mas dessas brutalidades que vivificam, salvam, não violentam.

Onde tem espaço e respira tempo: um corpo se move e a gente “co-move”. Invençõesdesprendidas.

Despedida:

Despe asditas:

Dessas danças com fitas:

Meus olhos continuam empoeirados com tamanha sensibilidade:BRUTA MIRADAnão deixa que suas imagens se despeçam de nós. “Se lembro, tenho” (GUIMARÃES ROSA).

Tempo espiralar nessas “afrografias da memória” (Leda Martins).

Estou habitado de coragens.

Minhas retinas guardam e agradecem essa mirada cuja brutalidade, repleta de tanta beleza, se transformou em delicadeza.